Homenagem a Carlos Contreiras

Carlos,

Conhecemo-nos em Outubro de 1960 quando o teu curso Luís de Camões entrou para a Escola Naval. Assumi então, como me competia, o encargo de falar contigo e te preparar para os “amargos de boca” a que serias submetido dada a tua situação de chefe de curso, o número 1 do LC.

Fiquei imediatamente cativado pela tua simplicidade e disponibilidade para aguentares as praxes navais sem queixumes ou revoltas superficiais.

As nossas vidas e carreiras deram muitas voltas. A tua dedicação à Marinha, a preocupação de fazer bem feito, talant de bien faire, esteve sempre presente na tua atuação nos navios em terra e nas diferentes Instituições onde estiveste. O teu sentido de justiça ética e estética foram notados nos navios por onde passaste, e nas pessoas com quem conviveste. O teu desinteresse pessoal e generosidade deixaram marcas indeléveis da tua presença entre nós.

O teu amor à Marinha e dedicação aos nobres ideais da humanidade levou-te a decisões e acções onde nos voltamos a cruzar, e a colaborar intensamente, desde 1970 na preparação para o 25 de Abril e o fim da guerra contra os nacionalistas africanos de Angola, Guiné e Moçambique.

O revanchismo que se seguiu ao 25 de Novembro de 1975 cortou a tua carreira, impediu que viesses a desempenhar as funções de comandante de um navio correspondente ao posto a que tinhas conseguido ser promovido capitão-de-fragata; a Administração da Marinha de então comunicou-te directamente que não serias escolhido para comandar uma unidade naval, perante tal situação decidiste, como homem que se preza e ama a profissão que abraçou, passar à reserva. 

[Recordo que muitas vezes entre nós nos momentos difíceis e de forte tensão dizias: poderemos perder a guerra, mas não perdemos os bons costumes e assim foi, conseguimos da nossa parte não perder os bons costumes]

Iniciaste então uma nova vida, agora com horizonte cívico e profissional mais alargado, voltaste a África (Moçambique) para colocar o teu saber e capacidade realizadora ao serviço desse povo irmão. De regresso a Portugal prestaste um valioso serviço na Câmara de Cascais inovando na criação da Polícia Municipal, mais tarde, dedicaste muito do teu tempo e saber a uma tarefa ciclópica de recolha de memórias, documentos e a coordenar a edição de uma coleção de livros da Colibri que preservam a memória de Abril, da revolução portuguesa e dos seus valores.

De novo a tua iniciativa, criatividade, sensibilidade e capacidade realizadora permitiram a criação de um imenso e valioso espólio que nos deixas, que deverá ser devidamente conservado e preservado, contém parte muito significativa da história de Abril, da Marinha e de Portugal.

A tua partida súbita, não anunciada por qualquer sinal, possivelmente em sintonia com o homem que cresceu na solidão dos grandes espaços e planuras alentejanos, foi um grande choque para todos nós, criou um enorme vazio e solidão que teremos de superar assumindo os ciclópicos trabalhos que tinhas entre mãos, continuando o legado que tu e outros capitães de Abril nos deixaram.

O horizonte da planura, as terras suadas e os mares tempestuosos que sulcaste fizeram florescer por teu intermédio:

– A Grândola Vila Morena, elemento da universalidade portuguesa, hino da fraternidade humana e símbolo da revolução de Abril

– A paz, a liberdade e a democracia em Portugal e noutros países de África, Europa e América Latina.

Honraste o Alentejo que te viu nascer e a Marinha que em parte te formou. A tua criatividade e imaginação marcaram a estética de Abril, a revolução dos cravos, o dia luminoso, inteiro e limpo do novo Portugal de Abril, que voltou a apontar ao mundo novos caminhos agora de paz, solidariedade e cooperação entre os povos.

Carlos, foste um dos principais obreiros de tal facto histórico, da nova face do Portugal livre, justo e fraterno, o novo Portugal democrático onde a dignidade de todos é reconhecida e respeitada. Os sinais rádio, a Grândola e outras manifestações estéticas de Abril, nasceram e floresceram em parte do teu trabalho, da tua dedicação, capacidade de inovação e iniciativa.

No Alentejo aprendeste o que é uma sementeira e como crescem as searas, entre nós plantaste ideias que floresceram em Abril numa extraordinária sintonia entre o movimento dos capitães, o seu programa (para que contribuíste de forma notável) e todo um povo exuberante de alegria embalado pela liberdade conquistada.

Esta hora de despedida a um dos notáveis capitães de Abril que tudo deram e nada pediram, é um momento que nos obriga a reflectir sobre a justiça que o país, a pátria e a sociedade ainda não fizeram aos capitães de Abril que já partiram; passados 50 anos é tempo de os responsáveis pela condução do país assumirem sem complexos que a democracia portuguesa também é obra de militares e cidadãos como Almada Contreiras.

Na nossa casa, a Marinha, é também hora de dignificar homens que ainda aguardam justiça concreta por atitudes tomadas em defesa da paz e da liberdade, homens que decidiram não continuar a guerra.

Carlos, nesta hora de partida inesperada e dolorosa aqui estamos com simplicidade e plena disponibilidade para continuarmos o teu exemplo e legado. Continuaremos a alimentar cada uma das diferentes pétalas da flor de Abril, não permitindo que murchem, continuaremos a tua e a nossa luta por um mundo melhor de paz e dignidade para todos, afirmando os valores de Abril.

Até sempre camarada, até que nos encontremos nos novos horizontes e planuras para onde partiste!

 

Martins Guerreiro

 Capela de São Roque 22 de Dezembro de 2024